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Esporte

Coronavírus: As dificuldades da imprensa esportiva do Vale do Itajaí

Meios de comunicação esportivos da região têm dificuldade para manter o conteúdo em meio à pandemia

21 maio 2020 - 10h30Por Thiago Gomes

O Campeonato Catarinense de futebol foi paralisado no dia 15 de março. Neste período de distanciamento social, as competições esportivas ao redor do mundo foram interrompidas. Uma das consequências destas decisões é a necessidade dos veículos de comunicação que dependem das práticas e dos eventos esportivos se reinventarem para sobreviver.

Veículos com uma verba publicitária maior, como rádios e canais de televisão, têm maior facilidade de manter as suas verbas pela cobertura de outros eventos e pelo alcance nacional. Mas como os veículos de comunicação esportivos regionais, que tem uma abrangência e uma expressão menor, estão conseguindo se manter ativos durante a pandemia? Esta reportagem foi buscar resposta para esta pergunta com alguns dos expoentes deste meio no Vale do Itajaí.

Jornalismo esportivo regional: perfil diferenciado dos veículos 


Os principais canais esportivos do país vivem de grandes eventos e contam com equipes divididas em vários estados do país. Uma realidade diferente dos veículos regionais. Estes, em sua maioria, trazem para os espectadores as atividades locais, como partidas de campeonatos municipais e estaduais das mais diversas modalidades. 

Os meios de comunicação regionais são diferentes dos nacionais na sua composição. Alguns são totalmente autônomos, tendo um quadro de funcionários remunerados que possuem foco total ao meio de comunicação em que atuam. Já outros veículos contam com profissionais ‘freelancers’, ou seja, que trabalham sob demanda e que, por isso, atuam em diferentes locais e para veículos distintos.

Um exemplo de jornalismo esportivo local é realizado pela Rádio Web Esportiva de Blumenau. O veículo surgiu em 2015, quando dois profissionais da imprensa esportiva de Blumenau decidiram criar uma rádio na internet para levar conteúdo esportivo para seus ouvintes.

Por iniciativa de José Rodolfo e Robson Sidral, com o apoio de Germano Neto, Juliano Russi e Silvio Köhler, foi criada a Rádio Web Esportiva. Um ano depois, com as saídas de Silvio e Rodolfo do projeto, os três integrantes remanescentes assumem a gestão do veículo. A rádio focada nos eventos esportivos locais se mantém com patrocínios.

“Essa é a forma como a rádio se mantém hoje, basicamente por patrocínios. Nós três corremos atrás (dos patrocinadores), junto com os apoiadores que também integram a equipe”, explica Germano Neto.

O fato de ser uma rádio web, segundo Sidral, por si só é um fator que dificulta a busca por patrocínios que pagam as contas do veículo. Isso acontece porque, segundo o fundador da rádio, os ouvintes com 40 anos ou mais não estão acostumados a acessar aplicativos ou sites para acompanhar transmissões ou programas esportivos. Esse público, conta Sidral, está acostumado a utilizar o aparelho de som e a buscar rádios convencionais. Apesar deste dificultador, segundo ele, a existência da rádio web não é comprometida.

“Com a interrupção das competições esportivas em Santa Catarina, o produto que a rádio oferece para seus ouvintes e patrocinadores deixou de existir. Como a nossa programação já é segmentada, fica difícil de comercializar. Então essa falta de conteúdo dificulta (a manutenção do meio ativo). Temos que procurar maneiras para suprir , principalmente, essa parte comercial”, comenta Sidral.


Germano Neto e Robson Sidral, respectivamente, em transmissão ao vivo do
tradicional torneio de verão de futsal em Indaial-SC. Foto: Divulgação/RWE

Hoje a rádio web de Germano Neto, Robson Sidral e Juliano Russi se mantém com o apoio de alguns anunciantes que continuam investindo no projeto neste período sem competições esportivas. Além das músicas que preenchem os horários dos programas esportivos e das transmissões ao vivo, um programa de músicas gaúchas mantém a rádio ativa no momento.

Essa iniciativa vem ganhando destaque por veicular o estilo musical gaúcho que, segundo os fundadores da rádio, é popular em Santa Catarina. Com o crescimento e destaque que a rádio conquistou nos últimos 5 anos, encerrar as atividades não faz parte dos planos e não é algo cogitado por Russi, Neto e Sidral.

Projeto na web busca pautas alternativas durante a pandemia 


Com um viés diferente da rádio de Blumenau, mas no mesmo ano, Jean Pablo Cardoso começava seu projeto na cidade de Itajaí. Atuando em um canal de TV da região na época, Cardoso percebeu que tinha mais pautas para sugerir do que o veículo tinha espaço para trabalhar.

A partir desta constatação, ele decidiu criar um blog, o Esporte Campeão, onde conseguiu abordar todos os assuntos esportivos que lhe chamavam a atenção e que não tinham espaço na televisão para serem veiculados. Sendo assim, ele criou o site para poder abordar os assuntos que não eram veiculados.

Após perceber o potencial que o site poderia ter e entender que o trabalho na televisão não estava rendendo tanto quanto o desejado, Cardoso apostou no potencial das redes sociais. Para isso, ele aproveitou o recurso do Facebook para transmissões ao vivo e ampliou o trabalho do blog, o ampliando para uma produtora de vídeos esportivos nas redes sociais  com o foco principal no Facebook.

Em maio de 2020, o Esporte Campeão contava com 15,8 mil curtidas e com 20,4 mil seguidores no Facebook. Para manter o canal atualizado, o projeto conta com um time de jornalistas remunerados de acordo com a produção feita para o site e as páginas das redes sociais.


Equipe do Esporte Campeão no estúdio da produtora. Da esquerda para à direita: Jean Cardoso, Ingo Spetler, Caetano Oliveira e Marcelo Nunes. Foto: Divulgação/EC 

Com o isolamento social decretado em Santa Catarina com o objetivo de reduzir a curva de contágio do coronavírus, o Esporte Campeão também teve que buscar alternativas para se manter.

“A gente se vira. Coloca pessoas no ar através de videoconferência, como jogadores, dirigentes, técnicos. Todo dia a gente busca uma pauta, além das atualizações e especulações sobre a volta das competições”, explica Cardoso.

O projeto do Esporte Campeão registrou crescimento a cada ano. Em 2020, segundo Cardoso, muitos patrocínios estavam encaminhados para ampliar ainda mais o projeto. Mas as novas ideias tiveram que ser adiadas com a chegada da pandemia do novo coronavírus.

“O pior mesmo é a situação dos patrocinadores. Todo mundo está em crise, e muitos cancelaram ou não pagaram. Então a gente já teve que fazer alguns cortes importantes para nos mantermos vivos”, conclui o jornalista.

Veículos tradicionais também sentem os efeitos da pandemia


Mas não são apenas as iniciativas de cobertura do jornalismo esportivo independentes como a Rádio Web Esportiva e o Esporte Campeão que estão tendo que se reinventar nesta fase. Outros veículos de imprensa focados em assuntos gerais também estão precisando inovar quando o tema está relacionado com as práticas e os eventos esportivos.

As notícias esportivas fazem parte, por exemplo, do trabalho do Jornal de Pomerode. O veículo se configura como uma produtora de notícias multimídia para redes sociais e site, além de oferecer uma edição impressa semanal que circula no município que dá nome ao periódico. A empresa conta com uma equipe de jornalistas exclusiva composta por seis pessoas.

No jornal pomerodense o esporte ocupa um local de destaque e é requisitado pelos leitores. Focado no jornalismo local, o periódico supre a demanda dos moradores da cidade, que se sentem pouco contemplados pelos veículos de cidades vizinhas e com população maior.

A escassez de conteúdo esportivo afeta o jornal na medida em que os profissionais responsáveis pela cobertura da editoria de esporte ficam sem assuntos para cobrir durante o período da pandemia.

O que mais preocupa a equipe do Jornal de Pomerode é a falta de transmissões ao vivo de eventos esportivos na cidade.

“As transmissões que a gente faz é uma maneira de entrar dinheiro no caixa. Nós vendemos patrocínios que são divulgados especificamente nas transmissões e, sem elas, é menos recurso para as despesas do jornal”, explica o repórter e narrador Raphael Carrasco.

Raphael Carrasco atuando pelo Jornal de Pomerode. Foto: Acervo Raphael Carrasco

Outro efeito da redução da cobertura esportiva foi percebido na edição semanal da mídia impressa. Nesta mídia foi verificada a redução no número de anunciantes.

“Alguns clientes acabaram saindo das páginas do impresso. É a crise. A gente sabe como é difícil”, complementa Carrasco.

Uma das medidas para amenizar os impactos da crise foi o remanejamento da equipe da publicação. Com o fim das competições esportivas, os jornalistas se revezam em plantões durante a noite e nos fins de semana, e a equipe esportiva foca nos assuntos em geral e não apenas no esporte.

Com a prestação de serviço da imprensa nesta fase de combate ao coronavírus, o jornalismo se tornou ainda mais requisitado pelo público em geral. Apesar disso, a crise que afeta todas as áreas da economia nesta fase também prejudica o trabalho dos veículos de imprensa, principlamente os locais.

Confira o vídeo no youtube do Nosso TAL

https://youtu.be/ECVcqlCU5GU

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