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Entrevista

Desafios de comunicação da ONU

Assessora de comunicação da Organização das Nações Unidas, em passagem por Blumenau, fala sobre a atuação da entidade no país e o futuro do jornalismo

06 dezembro 2019 - 21h53
Assessora de comunicação da ONU Brasil, Roberta Caldo é a porta voz da organização no país. Formada em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, sua experiência profissional inclui a produção de coberturas para noticiários nacionais diários em TVs, como Cultura, Globo e Record, onde ficou por oito anos, além de edição e redação de rádio, agência de notícias, revistas e jornais. No ano de 2005, assumiu a assessoria de imprensa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), onde ficou até maio de 2012.

Na organização, atualmente, é responsável pelos conteúdos para site e mídias sociais, além de atender a imprensa.

Em Blumenau, Roberta respondeu algumas perguntas para o aParte e contou mais sobre o seu trabalho na ONU Brasil.
 
aParte - Como é o seu trabalho na ONU?
 
Roberta Caldo - Meu dia é bastante intenso, porque ele inclui não só leitura de clipping [monitoramento das notícias na mídia], mas, atendimento de imprensa, e eu sou a responsável pela curadoria do conteúdo que é publicado no portal e nas redes sociais. Dependendo do assunto, eu acabo, as vezes, traduzindo material, mandando artigo para publicação em jornal, e, eventualmente, a gente organiza eventos, atividades culturais, rodas de conversa com estudantes e exposições, se a gente tem recursos. É um trabalho bastante intenso, porque nunca é um assunto só que eu estou lidando. Normalmente, eu lido com muitos assuntos ao mesmo tempo. Outro dia, eu recebi uma demanda de imprensa que dizia: ‘por favor, como que eu faço para acompanhar a votação do embargo a Cuba?’. Eu fiquei: ‘mas, tipo assim, onde? o que? qual embargo? do que você está falando?’. E era um dia que eu não tinha tempo de pesquisar, falei: ‘bom ele deve estar falando de alguma votação no conselho de segurança, vou remeter para lá, porque hoje eu não vou poder dar uma atenção maior’. Tem dia que está mais tranquilo: ‘deixa eu ver o que ele precisa, o que está procurando’, e aí vou atrás. Tenho um trabalho até, às vezes, de buscar dentro da própria ONU onde que a pessoa vai conseguir aquela informação, muitas vezes fora do país e, em alguns casos, para outras agências dentro do Brasil e, em outros, sou eu que faço a requisição de informação no exterior, para depois devolver a informação. 
 
aParte - Quais os desafios que a comunicação da ONU tem enfrentado?
 
Roberta Caldo - Primeiro, eu acho que é uma pauta que nem todo mundo entende. Quando você fala em “questão humanitária e ajudar refugiados” é fácil, mas, quando você sai disso, fica um pouco difícil das pessoas compreenderem. Principalmente, porque é um organismo que tem uma pauta muito extensa, então, ela trata de muitos assuntos ao mesmo tempo e não tem o poder de determinar nada, de obrigar ninguém a fazer nada. É um órgão de aconselhamento e não é uma organização que vai, por exemplo, construir 50 mil casas no Nordeste brasileiro. Não, ela apoia o pequeno agricultor, ensinando ele a fazer uma plantação mais sustentável. Para você mostrar esse trabalho é muito mais difícil do que se você tivesse 50 mil casas construídas.
 
aParte - Qual a importância de realizar esse trabalho de comunicação?
 
Roberta Caldo - A ONU é uma organização que tem uma marca muito forte. Quando você fala, todo mundo fala “ohh”, mesmo nem sabendo direito o que faz, mas, acha o máximo. Ao mesmo tempo que ela tem uma marca muito forte, você precisa preservar essa marca, manter ela forte, sólida e que continue tendo um reconhecimento perante a opinião pública, de alguém que tem o valor agregado, que é importante para o mundo, para a sociedade. Então, é a comunicação que faz isso. Uma das coisas que eu faço, também, é descobrir gente que está usando a logomarca que não pode usar, vou atrás e peço para retirar. Às vezes para se promover, ou dizendo: ‘tô distribuindo um título de embaixador da paz’. Não, é da sua organização, não da ONU, porque a ONU não distribui esse tipo de coisa. A gente faz contato e explica. Até nisso a gente é muito diplomático: ‘olha, é uma resolução da Assembleia Geral, não pode usar a logomarca, só o Secretário-Geral pode autorizar’. Normalmente, todo mundo acata e não tem nenhum problema, a gente nunca teve que mover uma ação judicial, mas, até isso a gente acaba fazendo.
 
aParte - Falando dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), como você vê a aplicação destas metas nos país?
 
Roberta Caldo - Eu acho que a gente avança em alguns setores, mas, em outros não tanto. Hoje, mais do que nunca, o papel de muitos estados e municípios tem sido fundamental, porque os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, por serem muito amplos, precisam de muitos atores trabalhando junto. Na hora que você fala de “Fome Zero”, você está falando de uma alimentação saudável desde a primeira infância, e, na primeira infância, quem cuida são os municípios. Ao falar de “Educação de Qualidade”, também, você passa por estados e municípios e não apenas no governo Federal. Quando você pensa em “Cidades Menos Poluentes”, você precisa de sistemas de transporte eficientes e eficazes. Então, eu acho que, mais do que nunca, hoje, a gente precisa do envolvimento e engajamento de todo mundo. Eu aposto muito na força dos jovens, que, hoje, são eles que estão aprendendo nas escolas, estão cobrando de seus pais, professores e avós, que seja feito mais pelo planeta e pelas pessoas.
 
aParte - Trazendo para o lado das comunidades e os ODS, como fazer esses objetivos chegarem até esses lugares? Porque a divulgação e a comunicação nestes locais, às vezes, nem existe e as pessoas acabam não tendo acesso a esses materiais.
 
Roberta Caldo - É um pouquinho do que eu falei na palestra de hoje sobre sair fora da caixa. Como podemos ser criativos com essa comunicação? A gente sabe que existem, hoje, muito lugares, principalmente no extremo Norte do país, que ainda temos um milhão de brasileiros que não têm acesso a energia elétrica, então, não dá para imaginar que esse habitante vá ter internet e redes sociais. A partir disso, como é que você chega nele? Você pode chegar nessa comunidade e nessas pessoas através do rádio, que ainda é um instrumento muito poderoso e muito forte. O Brasil tem um esquema muito grande de rádios comunitárias, que operam, principalmente, nas comunidades mais longínquas. Buscar meios de chegar por um jeito que não precisa ser no principal veículo de comunicação do país, na maior audiência. É chegar, às vezes, com uma palestra, um material de divulgação, falando pelo rádio, dando uma entrevista por telefone, levando e distribuindo materiais, a gente recebe muito pedido de material de escola e universidade e mandamos, na medida do possível, quando temos. Enviamos a “Declaração Universal dos Direitos Humanos” e a informação, para que as pessoas tenham acesso e saibam, também, reivindicar os seus direitos.
 
Roberta aponta alternativas para que a comunicação chegue nos lugares mais distantes do país. Foto: Bruno Vicentainer
 
aParte - Muitas vezes, essas pessoas, geralmente nessas comunidades, não têm essa preocupação com os ODS porque é uma questão mais a longo prazo e esses habitantes precisam de ações mais imediatas. Como funcionam essas ações? A ONU tem algum tipo de ação dentro de comunidades?
 
Roberta Caldo - Tem uma agência dentro da ONU chamada “ONU Habitat”, que cuida de assentamentos urbanos. A sede e a regional ficam no Rio de Janeiro, a sede Brasil e a regional América Latina ficam no Rio de Janeiro, também. Eles trabalham muito junto às comunidades no Rio e algumas do Nordeste. Então, eles apoiam construções sustentáveis, ações de saneamento. Essa é uma das agências da ONU que atende um pouco essa questão de comunidades.
 
aParte - Você pode contar um pouco do trabalho que fez no Ministério de Combate à Fome e como isso influenciou a sua experiência profissional?
 
Roberta Caldo - Eu trabalhava com hard news, era chefe de reportagem do Jornal da Record, apresentado pelo Bóris Casoy. Um dia sim, e no outro também, ele batia no governo. Fui convidada para trabalhar na Assessoria de Imprensa do Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Primeiro, eu falei que não e, uma semana depois, resolveram me demitir, aí eu falei: ‘gente, tô indo’. Foi muito bom, porque acabou juntando duas coisas; eu queria sair de São Paulo e de redação de televisão. Fui para Brasília trabalhar em assessoria de imprensa, com quase 40 anos. Foi um desafio profissional bastante interessante e muito desafiador, porque eu trabalhava em um jornal que falava mal do ministério onde eu fui trabalhar. Eu não entendia nada de ministério, políticas sociais e nada disso. Então, foi um período muito rico em termos de aprendizado e de muita humildade da minha parte, inclusive, na hora de atender os jornalistas, porque eu sabia que ninguém entendia do que eu estava falando. Foi um período muito rico também, porque eu tive a chance de viajar, não só o mundo, mas, pelo Brasil, não só acompanhando autoridades, mas, fazendo matérias pro site e revista. Eu fazia tudo. Fui chefe de assessoria de imprensa, eu era repórter, fazia bastante coisa. Eu vi muita gente mudando de vida, conheci pessoas que estavam ganhando energia elétrica pela primeira vez na vida, que os filhos estavam indo na escola, e isso acabou talhando muito a pessoa que eu sou hoje. Essa coisa de, “sim, somos todos iguais”, “sim, precisamos ter um mundo igual para todo mundo”. Era algo muito “sim, eu quero mundo igual para todo mundo”, mas, na hora que eu fui trabalhar na prática com isso, bateu muito mais forte em mim do que eu poderia supor, inclusive. Foi um período muito rico.
 
aParte - Em relação ao Jornalismo; vivemos em um período muito sombrio da profissão, tanto da credibilidade, quanto da questão das ONG’s que têm sido “postas contra a parede” e as fake news. Como você vê o caminho que o Jornalismo tem feito?
 
Roberta Caldo - Eu acho que o Jornalismo tem que caminhar no sentido da busca pela verdade, de um Jornalismo profissional, porque esse não morreu ainda. O Jornalismo bem feito, apurado, investigativo, que vai atrás de pautas criativas, assuntos que importam e, principalmente, humanizado, quando você conta uma história, colocando aquela pessoa para contá-la, ela ganha outra característica. O Jornalismo humanizado toca as pessoas. É possível fazer um Jornalismo de qualidade e eu enxergo que tem gente fazendo isso. Eu assino dois ou três veículos de comunicação que eu falei. Sou fora da curva, não assino só um, mas, vários. Ali tem muita coisa boa sendo feita, espaço para cientistas políticos falarem, para sociólogos, dar espaço e voz para as pessoas. O Jornalismo é isso, também. Ele é um conjunto de coisas; é você levar a informação a quem não tem, traduzir a informação para que todo mundo entenda e também dar voz para quem precisa.

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