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Trânsito

Empoderamento feminino sobre rodas

Mesmo assumindo mais a função de motorista, antes associada apenas ao sexo masculino, e causando menos acidentes de trânsito elas ainda são alvo de preconceito

06 julho 2020 - 10h10Por Natiele de Oliveira

As mulheres que dirigem van escolar, caminhões e carros por aplicativos vêm ocupando cada vez mais estas funções que, antes, eram comuns apenas aos homens. Contudo, elas ainda são minoria frente aos profissionais masculinos.

 

Há doze anos como proprietária e motorista de uma linha de van escolar, Joseane Oliveira de Souza conta que “trabalhar como motorista é muito desafiador, entretanto, não me vejo fazendo outra coisa”. A motorista atuava em uma facção de costura e estava sofrendo problemas em trabalhar como funcionária. Quando surgiu a oportunidade de comprar a van, não pensou duas vezes, e logo a adquiriu. No início da carreira ouviu críticas por ser nova e não ter experiência no ramo, mas atualmente recebe diversos elogios dos seus clientes. 

 

Segundo o Departamento Estadual de Trânsito do Estado de Santa Catarina (DETRAN/SC), cerca de 80mil mulheres realizaram algum serviço com relação a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) em Blumenau no ano passado. Seja primeira habilitação, renovação, mudança de categoria, entre outros procedimentos. Só até junho deste ano, as mulheres entre 40 a 49 anos já ultrapassaram a marca dos três anos anteriores. 

 

 

A CNH com categoria C, habilita a dirigir ônibus, micro-ônibus e vans. Já a categoria E, o motorista pode conduzir as CNH B, C e D. Além disso, ele também pode dirigir veículos que excedam 6 toneladas.  
 
Isto é, a maioria das pessoas que faz adição de uma dessas categorias, geralmente a utiliza para o trabalho. As mulheres somente neste ano, já realizaram 17 serviços relacionados a sua habilitação E. Em comparação com os anos anteriores, a média desse ano está muito alta.  

 

 

Acidentes

 

Por ser responsável pela vida das crianças do veículo, Joseane afirma que tem receio ao atravessar certos pontos da cidade. Ela se preocupa muito com os menores, então, preza em primeiro lugar pela segurança na direção. Joseane também pontua que possui habilitação há vinte anos e nunca causou um acidente.

 

Segundo dados divulgados pela Seguradora Líder, a maioria das indenizações pagas por acidentes de trânsito no Brasil são para vítimas do sexo masculino. Até abril desse ano, foram 6.587 indenizações pagas em Santa Catarina pelo Danos Pessoais causados por Veículos Automotores de via Terrestre (DPVAT). Destas, a maior parte, 72,39%. foi para homens. 
 
Em Blumenau, quase oito em cada 10 acidentes de trânsito registrados envolveram motoristas homens. É o que mostram os dados obtidos pela Secretaria Municipal de Trânsito e Transportes (Seterb) referentes ao ano passado. No total, 78% das ocorrências tinham condutores do sexo masculino, enquanto apenas 22% eram mulheres. O índice leva em conta os Boletins de Ocorrência (B.Os.) registrados junto à Guarda Municipal de Trânsito (GMT).

 

Embora os números comprovem que as mulheres se envolvem em menos colisões, a especialista de trânsito Márcia Pontes diz que as pessoas ainda não perceberam isso.  
 

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(Márcia Pontes começou a dirigir somente com 48 anos por medo) Foto: Reprodução/Facebook 

 

Segundo ela, o comportamento das mulheres no trânsito é muito mais cauteloso em comparação aos homens. Prova disso, é o fato de os seguros de carros para motoristas do sexo feminino ser historicamente mais barato do que do sexo masculino. “As mulheres são as queridinhas das seguradoras, justamente por não se envolverem em acidentes graves. A mulher quando se envolve em acidente, é de pequeno dano. É uma batidinha, coisa pequena. Já o homem, não. Ele se arrisca mais, quer se destacar, fazer graça.”, analisa Márcia Pontes. 

 

 

Preconceito diário

 

No Brasil a primeira habilitação feminina foi concedida no ano de 1932, no Estado do Espírito Santo. Com isso, o Brasil foi percursos neste sentido. No entanto, até os dias atuais mulheres condutoras são alvo de preconceito, que acontece diariamente, seja em forma de piadinhas ou de comentários. Na vida de Joseane, o primeiro deles foi no dia do teste de direção prática. 

“Eram cinco homens e apenas eu de mulher. Um deles estava nervoso e quis ser o primeiro, quando finalizou o trajeto, a delegada perguntou quem seria o próximo. Os outros senhores disseram “deixa a moça ir” em um tom de deboche. Realizei a minha prova e mostrei para eles que não estava para brincadeira, passei e fui elogiada pela delegada”, relata a condutora. 

 

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(Joseane Oliveira é motorista há 12 anos.) Foto: Reprodução/Facebook 

 

Sendo mulher e também especialista em trânsito, Márcia ressalta que todo dia é “um desafio, uma vitória e um grande orgulho, porque o trânsito desde cedo é associado a homens. O melhor disso tudo é provar que eu consigo. Mostrar para todos que mulher também sabe brincar de carrinho e brinca melhor do que eles. É difícil encontrar uma mulher como especialista nessa área, por isso, sinto que estou cumprindo o meu papel diariamente”, conclui.

 

Conforme Márcia, ela já sofreu muito preconceito, e atualmente aconselha as mulheres:

 

mulher ao volante, direção segura e elegante. Que vocês não se deixem abater, não carreguem o peso cultural de que mulher não sabe dirigir, de que mulher só faz besteira no trânsito, que só tinha que ser mulher mesmo. Que enfrentem todas os obstáculos que tiverem na vida e no volante. Que treinem bastante, e sejam um exemplo. Sigam em frente o seu papel de condutora. 

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