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Coronavírus

Jornalismo na Pandemia: a atuação de jornalistas catarinenses pelo mundo

Como jornalistas catarinenses continuam com a cobertura internacional em tempo de coronavírus

06 julho 2020 - 10h00Por Isabella Cremer

Isolamento social não é algo possível para os jornalistas que precisam continuar nas ruas produzindo informações. Pelo mundo todo jornalistas precisaram adaptar suas rotinas, mas em tempo de coronavírus, os profissionais precisam enfrentar um inimigo invisível. Assim como os jornalistas catarinenses que relataram sua nova rotina na matéria “Jornalismo na Pandemia: o cotidiano dos profissionais da área em SC”, jornalistas do estado que trabalham na cobertura da pandemia fora do Brasil enfrentam outros cenários.

Cleide Klock é jornalista e correspondente internacional da SBT, atualmente mora em Los Angeles, nos Estados Unidos. Ela relata que sua rotina, assim como a de diversos profissionais da imprensa ao redor do mundo, mudou drasticamente. Entre etiquetas de higiene e o isolamento social, a distância entre o entrevistador e o entrevistado é a maior dificuldade enfrentada por Cleide.

“O fato de a gente (jornalistas) não estar conseguindo cobrir enterros, o drama nos hospitais, por causa desse medo, porque a gente não pode chegar até lá, acaba deixando a cobertura muito fria”, comenta Cleide.

Com entrevistas feitas através de videoconferências e ligações, há a perda de percepção e sentimento que o profissional jornalista conseguiria captar em um contato pessoal. Para Cleide, o sentimento captado durante uma entrevista é essencial para que o profissional, como interlocutor de uma informação, possa transmitir para o telespectador a verdadeira história.

A jornalista explica que o distanciamento afeta a cobertura jornalística, principalmente em conteúdos televisivos. Com a impossibilidade e o medo de se deslocar até locais onde as histórias e a notícia acontecem, muitas vezes a cobertura se baseia muito em números, e não nas histórias das pessoas. Cleide afirma que essa mudança na cobertura afeta a conexão entre o telespectador e a notícia.

Países da Europa como a Itália, a Espanha, a Alemanha e Portugal vivem um cenário diferente dos EUA, a curva de novos infectados já chegou ao pico, e atualmente estão na curva descendente. Por isso, o jornalista Peterson Izidoro, correspondente da Rede TV que mora em Lisboa, conta que a cobertura jornalística já ocorre normalmente.

Por esse motivo, Peterson explica que a cobertura já mudou, não são noticiados apenas números, dados oficiais e medidas restritivas, mas boas notícias também, medidas e ações que deram certo e a gradativa recuperação da economia nos países da zona do euro. “O tipo de cobertura vai mudando conforme a evolução do caso”, que na cobertura desta pandemia é a curva de casos do Covid-19 nos diferentes países, observa ele.

Já em relação à rotina dos profissionais da área em Portugal, Peterson comenta que eles, assim como profissionais da saúde e da segurança pública, são considerados prestadores de serviço essenciais, ainda mais “em um momento como esse que a gente enfrenta, em que a informação correta e precisa é essencial para quem está em casa”, completa.

Peterson explica também que, diferente de países onde a pandemia ainda cresce rapidamente, em Portugal os jornalistas não foram tão afetados pelo distanciamento social ou por decretos de emergência. Ele pontua que com os devidos cuidados de higiene e prevenção “a gente podia sair, podia gravar, podia entrevistar, a gente tinha esse livre acesso de ir e vir enquanto estavam durando os decretos de emergência”.

Brasil nos noticiários internacionais

 Peterson Izidoro cobrindo o afrouxamento gradativo das medidas de segurança sanitária em Portugal. Crédito: Divulgação. 

Nos últimos anos o Brasil tem se destacado nos noticiários internacionais pela sua crise política e econômica. Muitas das notícias e dos fatos ligados ao Brasil criaram uma imagem negativa, e com as recentes notícias sobre decisões e medidas tomadas pelo governo brasileiro durante a pandemia do coronavírus, essa visão não melhorou.

O jornalista Peterson Izidoro explica que acompanhando as notícias sobre o Brasil na Europa é possível notar que os jornalistas questionam muito as decisões do governo brasileiro, e que o presidente é posto muito à prova.

“Frequentemente nós (comunidade brasileira em Portugal) somos interpelados por portugueses, que perguntam sobre o que está acontecendo no Brasil, por que o Brasil está fazendo isso, por que o governo está fazendo isso e não está seguindo o que as autoridades sanitárias do mundo inteiro recomendam”, relata Peterson.

A jornalista da SBT, Cleide Klock, confessa que sente muita tristeza em ver o Brasil sendo colocado como um dos pouquíssimos países negacionistas da ciência. E destaca com pesar que “viramos piada mais uma vez”.

“Nos tempos atuais, onde a tecnologia é muito rápida, as plataformas digitais aproximam países em questão de segundos, uma notícia dada no Brasil, ou um pronunciamento, uma atitude, uma medida tomada no Brasil que vai contra tudo o que está sendo feito para evitar a propagação do vírus, rapidamente chega aqui na Europa e os meios de comunicação europeus questionam”, explica Peterson.

Ele confessa que como jornalista e cidadão brasileiro ele vê tudo isso com incredulidade, assim como seus colegas jornalistas europeus. Peterson pondera ainda que se o Brasil, com a vantagem de ter sido atingido pelo vírus um tempo depois, tivesse buscado a experiência de outros países e aplicado medidas de forma mais eficiente, os números brasileiros mostrariam uma realidade diferente.

Cleide destaca ainda o fato de que muitas vezes “a imprensa internacional destaca a crise política (do Brasil) em um momento que todos deveriam estar juntando forças em prol da vida”.

Desafios da imprensa pelo mundo

 Cleide Klock cobrindo os recentes protestos nas ruas de Los Angeles. Crédito: Cleide Klock/Divulgação.

Da mesma forma que no Brasil, os jornalistas que atuam nos Estados Unidos também sofrem com a violência e com um certo nível de descredibilidade. A jornalistas Cleide Klock explica que desde que começou a morar nos EUA, em 2009, e atuar como correspondente, nunca tinha sofrido tanta violência como quando o atual presidente Donald Trump começou a agredir a imprensa.

“Sempre gravei na rua, nada de insultos naqueles primeiros anos, e notei que a partir do momento em que o presidente Donald Trump assume, eu estava lá gravando normalmente, e aparecia alguém berrando por trás ‘Fake News, Fake News”, explica Cleide.

Ela analisa que este tipo de situação está diretamente ligada ao posicionamento e às atitudes que governantes, principalmente, tomam diante de seu eleitorado. Cleide diz que fica clara essa relação ao avaliar situações onde o que é falado por algum representante político logo está nas redes sociais, em perfis e “na boca do povo”.

A jornalista compara o Brasil aos Estados Unidos, dizendo que o “cala a boca jornalista” é apenas um reflexo de quem está no topo. Além disso, ela relembra que quando ainda trabalhava no Brasil, enquanto cobria manifestações como as do movimento sindical, também era muito agredida.

No índice de liberdade de imprensa, divulgado pelo grupo de vigilância Repórteres Sem Fronteira, os Estados Unidos está na posição de número 45, e é descrito como um país onde jornalistas são presos, sofrem agressões físicas e verbais, além de serem assediados e investigados pelo governo de forma ilegal.

Entretanto, essa realidade não é limitada aos Estados Unidos. A pesquisa analisa a situação de 180 países e territórios, que são anualmente rankeados. O Brasil, no ano de 2020, caiu duas posições, chegando 107° na lista. De acordo com o relatório, isso se dá pela crescente onda de ódio destilada aos jornalistas e aos meios de comunicação do país.

Portugal se encontra na décima posição do ranking. Apesar dos salários baixos, a violência e a difamação dos profissionais da imprensa não são algo comum. Os maiores desafios são os processos e ações judiciais que o “mundo do futebol”, como colocado no relatório, colocam sobre os jornalistas investigativos.

Peterson Izidoro comenta que em Portugal, e nos países europeus em geral, não há esse desrespeito e essa ofensiva contra os profissionais da imprensa. Ele explica ainda que “o que a gente vê no Brasil, a gente vê muito em correntes políticas que contaminam parte da sociedade e escolhem bodes expiatórios, e um dos bodes expiatórios acaba sendo o jornalista”.

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