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Coronavírus

Jornalismo na Pandemia: o cotidiano dos profissionais da área em SC

Como jornalistas catarinenses estão seguindo com o seu trabalho durante a crise do coronavírus

18 maio 2020 - 10h10Por Isabella Cremer

No momento em que trabalhar, muitas vezes, coloca a vida de quem está desempenhando uma função em risco, os jornalistas vivem uma rotina de incertezas e de perigo constante. O mesmo que é vivenciado por trabalhadores das áreas da saúde, da segurança pública e por outras profissões consideradas essenciais para o funcionamento da sociedade em uma época de pandemia.

Além do medo de serem infectados pelo novo coronavírus, jornalistas que trabalham na cobertura da pandemia no estado de Santa Catarina confessam que têm medo de serem agredidos nas ruas. Isso acontece pelo movimento crescente de combate ao trabalho independente dos jornalistas.

Tempo de tensão: pandemia e questionamento da imprensa em paralelo


Alguns profissionais que atuam no Estado revelam que as pessoas estão cada vez mais agressivas e exaltadas. “Receio de ser agredido fisicamente na rua. Estamos sofrendo várias agressões verbais e xingamentos, então o receio é que ocorram agressões físicas ou algo pior”, confessa Paulo Mueller, repórter da NSC TV em Florianópolis.

Mueller relata um dos episódios em que foi agredido verbalmente: “Um cidadão começou a gritar de longe na rua, vindo em minha direção, e dos cinegrafistas que estavam comigo, chamando a emissora de comunista, questionando como eu me sentia trabalhando em uma empresa comunista. Ele colocou o celular na minha ‘cara’, me gravando, fazendo perguntas.” A reação do jornalista e da equipe foi sair do local, seguindo as orientações da empresa de não permanecer em ambientes inseguros.

O crescimento no número de casos do novo coronavírus em Santa Catarina alterou o cotidiano dos jornalistas que atuam no Estado. Procuramos alguns destes profissionais para que eles nos contassem como a rotina deles mudou e de que forma estes jornalistas encaram esta fase de desafio para eles e para a sociedade em geral.

Desafios do jornalismo em época de polarização política e deslegitimação da profissão


O jornalista Upiara Boschi, colunista político do Grupo NSC, com trabalho veiculado no Jornal de Santa Catarina, no A Notícia, no Diário Catarinense e na NSC TV, acompanha de perto esta questão da polarização política no país.

Na visão de Boschi, um dos fatores que contribuiu para essa polarização e para a hostilização da imprensa é a crise de representatividade que o Brasil vive há muitos anos. Para ele, essa crise não envolve somente a imprensa, mas a classe política também. “Todos estão tendo que se repactuar com a sociedade. A gente está passando por esse período de turbulência pelo fake (news, as notícias falsas), e o corona é a oportunidade de mostrar o valor da imprensa profissional”, opina.

O colunista do Grupo NSC pondera que quando os escândalos da Lava-Jato começaram a ser revelados, as pessoas talvez tenham se sentido enganadas. A reação para isso foi a criação de um sentimento de desconfiança dos meios de comunicação tradicionais. Isso teria ocorrido mesmo com a imprensa sempre acompanhando as questões políticas e criminais do país.

Upiara Boschi produzindo conteúdo em casa. Crédito: Upiara Boschi/Divulgação

“A gente (a imprensa) permitiu que a narrativa da antipolítica campeasse como um todo. Sem política a gente não consegue ser esse mediador, porque a gente faz parte de uma sociedade que tem os seus atores, que tem que estar funcionando. Na hora em que entramos nesse curto-circuito (da política), a imprensa entrou junto”, opina Boschi.

 

A busca do jornalismo profissional em época de Covid-19


Para o jornalista Pancho Fresard, que atuou até o final de abril de 2020 como colunista do Jornal de Santa Catarina e do portal NSC Total, o avanço do coronavírus despertou um novo interesse do público pelo jornalismo profissional.

“A maior prova de que o jornalismo é obviamente necessário é o que a gente está passando hoje. A gente percebe pelos acessos no portal (do grupo NSC), que aumentaram significativamente nesse momento de crise. Ou seja, as pessoas buscam informação onde elas acreditam que a informação realmente tem valor, onde a informação pode estar colocada de tal forma que vai atender aos interesses da sociedade como um todo e não simplesmente de algum grupo específico”, pondera.

A relevância que o jornalismo profissional parece obter entre o público neste momento é compartilhada por Paulo Mueller. O jornalista comenta que, em comparação com os últimos anos, mesmo nesse momento de crise e de descrédito ao jornalismo, o telejornalismo local nunca obteve tanta audiência.

Apesar de verificar isso na prática, Mueller comenta que os profissionais da área vivem um contraponto de situações atualmente. Segundo o profissional, atualmente os jornalistas vivenciam dois paralelos: por um lado, algumas pessoas criticam muito o trabalho dos jornalistas, afirmando que não assistem mais TV porque a imprensa em geral está fazendo “tempestade em copo d’água”; enquanto que, por outro lado, as emissoras registram uma audiência crescente.

Uma pesquisa feita pela empresa de comunicação global Edelman reforça esta leitura do jornalista catarinense. Ela mostrou que os brasileiros procuram obter a maior parte das informações sobre o coronavírus nos principais veículos de imprensa, pelas redes sociais ou pelas fontes do governo.

A pesquisa entrevistou 10 mil pessoas, distribuídas igualmente entre dez países, entre eles o Brasil, durante os dias 6 e 10 de março.

O que é notícia em época de pandemia de coronavírus


“Difícil fazer algo que não seja coronavírus”, explica Pancho Fresard sobre como foram tomadas as decisões de pauta na redação do Jornal de Santa Catarina nos primeiros meses de disseminação da pandemia no Estado e no país.

          Crédito: Pacho Fresard/Divulgação

O jornalista que atua em Blumenau explica, com este comentário, que todas as pautas acabaram ficando relacionadas com a pandemia. Fresard comenta que quando a população estava toda em quarentena, quase nada acontecia para que fosse noticiado. A consequência disso é que o coronavírus “estava em todos os lugares” e dominava a narrativa dos profissionais da imprensa.

Mas com a gradativa retomada das atividades econômicas e sociais, iniciada ainda em abril, as pautas começaram a diversificar também. “Ainda assim, temos certeza de que a pandemia vai nortear nosso trabalho por um bom tempo”, observa.

A cada nova edição do telejornal, Paulo Mueller comenta que as pautas são decididas levando muito em conta a angústia do telespectador. As reportagens da NSC TV, que contam com as equipes espalhadas no Estado, mas que tem a apresentação centrada em Florianópolis desde o início da pandemia em Santa Catarina, tentam responder aquilo que o telespectador quer saber no momento.

“A gente está pautado na questão do serviço para o cidadão. Ele é quem quer saber como que fica o emprego dele, como que fica o auxílio emergencial ao qual ele tem direito. É o cidadão que não está tendo atendimento nas agências do INSS, quem não está tendo respaldo do próprio governo, que anuncia uma série de medidas mas que acaba deixando muitas interrogações. Então a gente está pautando muito nisso, na questão do serviço”, explica Mueller.

A pesquisa realizada pela Edelman mostra quais as principais informações que os brasileiros buscam regularmente. Esses dados podem influenciar o trabalho dos jornalistas no momento destes profissionais decidirem as pautas que irão trabalhar no dia a dia.

Entre as principais informações buscadas pela população estão a de como as pessoas podem evitar espalhar o vírus; quais as últimas descobertas científicas sobre o assunto; onde é possível realizar os testes; impactos econômicos e as últimas atualizações sobre a disseminação do Covid-19.

Necessidade de inovar na produção dos conteúdos durante a pandemia


Os processos de produção em muitas áreas tiveram que ser alterados por causa da disseminação do coronavírus. Muitas empresas adotaram o trabalho em home office e escalas diferenciadas de trabalho. O mesmo aconteceu com os profissionais de comunicação.

Com o distanciamento social e as novas condutas de segurança para evitar a disseminação do Covid-19, as redações tiveram que adaptar suas produções. Para manter a população sempre bem informada, os profissionais da área investiram no trabalho mediado pelas tecnologias.

A NSC TV e o Jornal de Santa Catarina, que fazem parte de um dos principais conglomerados do Estado, a NSC Comunicação, seguiram à risca as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde, assim como as determinações do governo estadual.

Entrevistas e apuração feitas à distância. Crédito: Paulo Mueller/Divulgação

Na prática, essas empresas adotaram diversas medidas preventivas, como o regime de trabalho em home office para grande parte das equipes e o uso de escalas para atuação de alguns profissionais nas ruas. Essas medidas transformaram os processos de produção dos jornalistas.

Busca por segurança no trabalho de campo


Apesar do cuidado maior na produção das reportagens, os profissionais da comunicação sabem que manter o público informado representa uma certa dose de perigo. Isso é vivenciado por profissionais como o fotojornalista do Jornal de Santa Catarina, Patrick Rodrigues, que cobriu o início da disseminação do coronavírus no Estado, até que suas férias foram antecipadas pela empresa.

O fotojornalista registrou os primeiros atendimentos nos ambulatórios instalados no Parque Vila Germânica e na Pró-família (Secretaria da Família), em Blumenau. Neste primeiro período ele também acompanhou a movimentação das ruas e do comércio.

Rodrigues relata que antes mesmo da obrigatoriedade do uso de máscaras na cidade, ele já procurava utilizá-las nas ruas. Ele procurava também seguir com as recomendações de higienização das mãos e dos equipamentos, assim como com o distanciamento das outras pessoas, buscando ficar o mais seguro possível no trabalho em campo.

“Trabalhar com medo é um pouco importante, para saber os limites de até onde a gente pode chegar. Sabendo que é um vírus extremamente contagioso, é difícil você criar um 100% de proteção estando na rua”, pondera Rodrigues.

Mudanças na forma de produzir notícias alteram também os conteúdos


Paulo Mueller, repórter da NSC TV, confessa que apesar dos jornalistas estarem se adaptando a essa nova forma de fazer jornalismo, ele não sabe se esta é a melhor maneira de atuação para os profissionais da área. “Afinal, ninguém nunca passou por isso antes”, observa.

Um exemplo sobre esta dúvida em relação ao fazer jornalístico está relacionado com as entrevistas. Isso porque, antes da pandemia, os profissionais da área tinham uma certa aversão quando não tinham contato direto com o entrevistado, comenta Mueller. Essa aversão tinha a ver com a falta de possibilidade de captar imagens com material próprio e com maior qualidade.

Hoje, com a disseminação do coronavírus, a perda da qualidade visual está sendo mais aceita quando o profissional entrega o produto final do seu trabalho. “Com isso, vejo que a informação realmente é o nosso grande ponto-chave dessa cobertura”, acredita.

No jornalismo impresso e digital os profissionais também sentem que a falta de contato pessoal com as fontes e os entrevistados afeta a produtividade. Boschi relata que frequentava muitos espaços e órgão públicos, onde tinha encontros casuais com as fontes, marcava cafés e coletava informações de bastidores.

“Agora eles (fontes) me procuram ou eu os procuro, e isso muda a lógica de produção da informação. Isso porque muita coisa a gente acaba sabendo por meio de uma conversa banal, ou percebe na hora, vendo as coisas (acontecerem)”, explica o colunista de Política do Grupo NSC.

Outro aspecto que prejudica a rotina de produção é o volume de informações e a rapidez com que elas mudam nesse contexto da pandemia. O jornalista político avalia que atualmente escreve menos do que deveria em decorrência dessa “urgência das coisas”.

Jornalismo em transformação com a ajuda da tecnologia


O processo de produção dos conteúdos para televisão, portais e jornais impressos é diferente. Ainda assim, na avaliação de Pancho Fresard, o trabalho dos jornalistas está um tanto deficiente, apesar da tecnologia ajudar.

Para realizarem as apurações de dados no dia a dia, segundo o jornalista, os profissionais da área estão utilizando com uma frequência maior o telefone e as ferramentas de comunicação online. Ainda que essa prática fazia parte da rotina profissional antes da pandemia, o que mudou é que, agora, mais do que antes, os jornalistas têm utilizado muitas fotos de assessorias de imprensa, órgãos oficiais e da população.

Aumentou também o número de entrevistas por vídeo chamadas – prints destas conversas e a reprodução de vídeos passaram a ser mais comuns nas reportagens por causa disso.

“Acho que o jornalismo vai se renovar bastante depois dessa experiência porque têm muitas coisas que estamos fazendo na necessidade, mas que depois vai ter que ser analisado se volta”, opina o colunista Upiara Boschi.

Para ele, nada no futuro vai se igualar ao momento atual, à crise provocada pela pandemia. “O coronavírus vai (nos) dar essa chance de olhar pra dentro e ver como estamos fazendo as coisas, o que podemos fazer diferente, e o jornalismo vai passar junto por essa transformação”, acredita.

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