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Quebrando paradigmas: conheça a história da bombeira militar Carolina

Veja a trajetória da primeira mulher a dirigir um caminhão de resgate do Corpo de Bombeiros Militar em Blumenau

19 maio 2020 - 10h10Por Natiele de Oliveira

Há seis anos atuando como bombeira militar, Amanda Carolina Duarte conseguiu quebrar uma cultura que perdurou por 62 anos em Blumenau. Ela é a primeira mulher a dirigir um caminhão de incêndio do CBMSC (Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina).

Essa conquista marcou a história da mulher que, quando criança, corria por todos os lados e que sonhava em ser médica, porque achava bonito. Carolina não fez Medicina, mas considera que, atualmente, seu trabalho como bombeira é tão inspirador quanto a carreira de médica. “Sonho com o dia em que as pessoas percebam que as mulheres podem fazer o que quiserem, basta disposição e vontade pra isso”, projeta a soldado. Atualmente, Carolina é a única mulher que trabalha no atendimento a ocorrências no 3º Batalhão de Bombeiros Militar. A soldado Cividini e Sheila Maria que também atuam nas guarnições estão afastadas por estarem grávidas. 

Do esporte à escolha da farda: a trajetória da soldado pioneira em Blumenau


Carolina não foi a menina que, durante a infância, como tantas outras, sonhava em trabalhar como bombeira quando crescesse. Tanto é que se formou na faculdade de Ciência do Esporte na Universidade Estadual de Londrina (UEL), sua cidade natal.

A mudança de direção começou a ser traçada no final da faculdade. Naquela ocasião, ao pensar no seu futuro profissional, Carolina desejava por estabilidade e pensou que na profissão inicialmente escolhida isso seria difícil.

Foi então que ela observou como alguns de seus amigos, com formações parecidas com a dela, prestaram concurso para bombeiro militar. A princípio, foi o retorno financeiro que a carreira poderia trazer no futuro que despertou o interesse de Carolina pelo trabalho dos bombeiros. 

“Não foi uma tarefa fácil entrar no CBMSC. Exige muita dedicação e esforço”, comenta a soldado. 

Uma comprovação disso é que as primeiras tentativas de Carolina em se tornar uma bombeira militar falharam. Apesar destas dificuldades, a soldado não desistiu.

Em 2011, Carolina prestou o primeiro concurso público, para o CCB PMPR (Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Paraná), mas não consegui passar. Um ano depois da primeira tentativa, ela tentou o concurso para bombeira militar no CBMSC, em Santa Catarina. Novamente ela não conseguiu passar, mas, desta vez, no TAF (Teste de Aptidão Fisíca). No mesmo concurso, o então namorado e atual marido da militar conseguiu passar. Essa conquista foi um reforço positivo para ela. “Ao ouvir o que ele me contava sobre como as coisas funcionavam (no concurso e na profissão), já me dava a impressão de que eu me encaixaria bem (no serviço militar)”, comenta.

Embora frustrada por ter sido reprovada novamente, decidiu seguir em frente com o desejo de trabalhar como bombeira militar.

Carolina continuou estudando e praticando o que é exigido para a carreira, até que surgiu a oportunidade para ela fazer uma nova tentativa. “Quando eu vi que não tinha passado em uma prova física, isso me desanimou muito, pois já praticava muito esporte. Então passar no concurso virou uma questão de honra. Tanto que tentei pela terceira vez e passei!”, exclama a bombeira.

O sucesso no concurso veio em 2014. Após três tentativas a soldado conseguiu realizar o sonho de entrar no CBMSC. Escolheu Carolina como seu nome de guerra (apelido pela qual será conhecida entre seus colegas militares), porque sempre preferiu o segundo nome.

Ela estudou no CFSd (Curso de Formação de Soldados) durante 8 meses. Após isto, no começo da carreira, atuou na Operação Veraneio, em Porto Belo. Durante três meses ela trabalhou atendendo ocorrências no litoral como guarda-vidas.

Depois dessa experiência, Carolina foi transferida para prestar serviços à comunidade blumenauense e região do 3° Batalhão de Bombeiros Militar. Desde então ela segue atuando na mesma unidade.“Para a minha alegria, logo no curso de formação de soldados, eu percebi que me identificava (com a profissão), que gostava de tudo isso. Assim, eu não só tive a estabilidade que eu queria, mas o serviço em si me completou profissionalmente. Agora, posso dizer que sou realizada”, enfatiza.

A atuação das mulheres no Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina


 As mulheres seguem buscando o seu espaço na sociedade. Na área militar isso não é diferente. A soldado Carolina, neste sentido, destaca como ela se sente atuando em uma área na qual ainda predomina a presença masculina: “Meu maior desafio é mostrar que, tendo consciência das diferenças físicas, fisiológicas e emocionais que existem entre homens e mulheres, porque no meu ponto de vista, literalmente não somos iguais; ainda assim é possível estar no mesmo ambiente de trabalho e executar as missões com tanta destreza quanto eles. Isso depende da minha postura e qualificação profissional, e da mente aberta dos que trabalharem comigo”. 

 O 2° sargento Airton Schimits, chefe de socorro da guarnição azul do 3º Batalhão de Bombeiros Militar de Blumenau, também opina sobre o trabalho conjunto entre homens e mulheres na corporação:

“Estamos em pé de igualdade com todas as mulheres da corporação. Acredito que não há diferenças na atuação do serviço”.

Em 2003, o Corpo de Bombeiros Militar deixou de ser parte integrante da estrutura institucional da Polícia Militar de Santa Catarina. Após a emancipação, o efetivo militar pode escolher em qual instituição deseja prestar serviços.

A partir deste momento de mudança institucional, a corporação passou a contar com as primeiras bombeiras militares. Segundo informações do CBMSC, em 2003 o quadro da corporação era composto por oito mulheres, sendo sete praças e uma oficial. Atualmente, o efetivo do Corpo de Bombeiros de Santa Catarina é composto por 178 mulheres na ativa. Em Blumenau, são 97 bombeiros militares, sendo apenas cinco mulheres. Elas atuam nas atividades operacionais e administrativas da corporação. 

O sonho de dirigir um caminhão do bombeiro  

     “Me tornar motorista de caminhão foi um desafio para mim. E não só conseguir a categoria na carteira de habilitação, mas de fato conduzir viaturas e fazer parte da equipe com mais esta função”, conta Carolina.

Desde que foi transferida para Blumenau, em 2015, a soldado desejava ser condutora do caminhão de incêndio do CBMSC, conhecido também como o ABTR (Auto Bomba Tanque Resgate). Para atingir esse sonho, ela primeiro mudou a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) para a categoria “D”, em agosto de 2018.

Depois de vencida esta etapa, ela não conseguiu começar na função no mesmo ano por uma questão burocrática. Apesar deste empecilho, Carolina conta que sempre teve o apoio do 2° sargento Schmits e do 3° sargento Ivanio dos Santos para desempenhar a nova função.

Foi em setembro de 2019 que Carolina começou  a atuar como condutora de emergência em Blumenau. Desde então ela opera o caminhão seguindo a escala da sua equipe, a guarnição azul. 

“É notável quando saio dirigindo o caminhão. A maioria das pessoas olha, principalmente as crianças. É uma sensação de conquista, mesmo que eu tente sempre me colocar (na mesma posição) que os outros (colegas da corporação), é uma sensação diferente, porque é algo novo aqui em Blumenau”, explica a soldado.

Segundo Carolina, apesar do orgulho que sente pela função que desempenha junto com outros colegas, ainda existem dúvidas sobre o seu trabalho na cidade. Em algumas ocasiões ela notou como parte da população desconfia de uma mulher à frente do caminhão na hora do atendimento. “Ficam com o pensamento de ‘será que essa mulher aí vai conseguir me atender?’ Tiveram até algumas vezes em que cheguei na ocorrência e a pessoa não quis ser atendida por mim”, conta.

Carolina conta o que aconteceu em uma dessas situações: “Uma senhora duvidou do meu trabalho. Tive que pedir para ela confiar no que eu estava fazendo. Depois de uma certa insistência, ela acabou concordando em receber a minha ajuda. Segui o atendimento e, por fim, ela acabou agradecendo.”

O sargento Ivanio, militar que há anos dirige caminhões de resgate em Blumenau e agora divide a função com Carolina, conta como foi a transição da colega até assumir a nova função: “Eu percebia que ela sempre teve muita curiosidade no caminhão. Quando ela comentou que tinha interesse em alterar a CNH, incentivei muito e mostrei os macetes de como funcionava (a direção do caminhão)”.

Logo que Carolina conseguiu a vaga de motorista, teve algumas aulas práticas com o sargento no estacionamento do batalhão.

“Fico orgulhoso da ótima motorista que ela se tornou. É um pouco complicada a direção porque o caminhão é pesado e tem que ter muita responsabilidade (ao guiar o veículo). Ela é uma mulher de estrutura pequena, (por isso) acaba que as pessoas duvidem dela, mas a Carol já provou que consegue”, opina Ivanio.

O desafio de guiar o caminhão


Os três quartéis de Blumenau atendem cerca de 6,5 mil ocorrências por ano. O ABTR, por ser um caminhão de resgate que é utilizado com frequência, faz parte dessa história.

Desde setembro de 2019 o veículo é conduzido por uma mulher que sonhou por diversos anos com este momento. No trabalho da corporação, é possível ver Carolina e o ABTR atuando em atendimentos como operações de combate a incêndio, apoio a ambulância em acidentes de trânsito e resgate veicular, assim como ações de resgate de animal em perigo, salvamento aquático e salvamento em altura.

O operador responsável pelo ABTR tem funções diferenciadas no momento de uma ocorrência. Em um acidente de trânsito, por exemplo, o condutor do caminhão é quem faz a segurança de toda a equipe. Em casos de incêndio, o motorista controla a bomba d'àgua enquanto o combatente atua na ocorrência até a chegada da ambulânica para auxílio da operação.

   “Isso tudo está sendo um grande desafio para mim. É uma outra e maior função. Tanto que tem bombeiras que não desejam ser motoristas justamente por não querer essa responsabilidade, que é muito séria”, pondera a bombeira.

Na prática, o ABTR é uma viatura de grande porte. Ele apresenta uma cabine dupla e a carroceria com gavetas equipadas de materiais para utilizar em operações de combate a incêndio e qualquer tipo de resgate. Contém também um reservatório d’água com capacidade de 4 mil a 5 mil litros. “Ele é um pouco pesado, mas mesmo eu tendo 1,60 metro (de altura) eu dou conta, viu? Se me virem dirigindo, não tenham medo”, brinca a soldado.                     

              O ABTR é a viatura mais utilizada em Blumenau. Foto: Natiele Oliveira.

Quando questionada sobre a ocorrência mais difícil que atendeu ou sobre o dia mais complicado de sua carreira até o momento, a soldado não pensa duas vezes. Preparado(a)? Então confira no áudio abaixo a narrativa da soldado sobre o dia mais desafiador na carreira de Carolina até o momento: 

 

Colegas de farda: uma guarnição sempre pronta para salvar


 Há três guarnições de serviço em atividade no 3° Batalhão de Bombeiros Militar. Essas equipes trabalham em uma escala que prevê 24 horas de trabalho seguidas de 48 horas de folga. A guarnição azul, equipe da soldado Carolina, atua fazendo rodízio de funções. Por isso, os militares exercem os papéis de motorista e socorrista na ambulância e de motorista e combatente no caminhão.

O objetivo da alternância de funções feita pela equipe é garantir que todos possam ser qualificados independentemente do trabalho a ser exercido. Assim, cada integrante da equipe atua em uma função diferente no seu dia de serviço conforme determinação do chefe de socorro.“Vejo uma grande importância no serviço que ela está exercendo. Tanto na ambulância como, agora, dirigindo o caminhão”, observa Ivanio.

No dia a dia, Carolina trabalha ao lado dos bombeiros militares sargento Airton Schmits, sargento Ivanio dos Santos, cabo Igor Thiago, soldado Giovani Araujo e soldado Otavio Nicolino. Segundo a soldado, todos deram total apoio para ela quando assumiu a função de motorista da guarnição.

O Chefe de Socorro, sargento Schimits, ressalta que sente orgulho pela conquista da soldado Carolina, a primeira mulher a ocupar uma função que era, até então, exclusivamente desempenhada por homens.

 

“Na equipe que eu trabalho (especificamente) não existe diferença. Eu sou uma peça da equipe, igual às outras, e também sou motorista, assim como os outros, então não posso dizer que dos que trabalham comigo eu tenha sofrido preconceito”, explica Carolina.

Carolina junto com os parceiros de guarnição: sargento Schimits (à esquerda) e sargento Ivanio.
Foto: Natiele Oliveira


Quando questionada sobre a sua maior inspiração como militar, ela aponta o colega e superior sargento Schmits como seu modelo. “Ele tem postura, alta qualidade profissional, muita experiência, mas não deixa tudo para a experiência. Ele busca por atualização constantemente. E o mais impressionante de tudo é que ele tem a mesma vibração pelo serviço (militar) mesmo depois de tantos anos. Acredito que isso é o que faz dele o profissional que ele é”, destaca.

Interessada sempre em avançar, Carolina já projeta o que deseja alcançar no futuro: “Penso em crescer na carreira militar. Estou estudando para subir de cargo. Acredito que posso servir de inspiração para outras mulheres. Todas têm um alto potencial para, se possível, quebrarem futuras barreiras”.

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