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Religiosidade

União e religiosidade para começar de novo

Moradora da comunidade do Horto Florestal, em Blumenau, perdeu a casa em incêndio neste ano

05 dezembro 2019 - 21h25Por Taynara Schemes

 

“Eu estava varrendo a parte de trás da minha casa e limpando o quintal quando, de repente, escutei um barulho e não sabia se era fogo ou água, mas, quando eu entrei em casa, os meus dois botijões estavam com mais de 20 metros de fogo, que subia e subia”, relembra Dirce Seifert, 76, moradora da comunidade do Horto Florestal que teve sua casa incendiada em 2019.

A senhora, já aposentada, continua costurando de forma autônoma. Em um dos quartos da antiga casa guardava toda a sua malha e pedaços de tecido que sobravam das peças que confeccionava, mas quando o incêndio aconteceu, viu todo o seu trabalho queimando e servindo de combustível para as chamas que tomaram conta de tudo que tinha. “Quando o fogo passou para os tecidos, aí não deu mais tempo e eu só comecei a gritar e gritar pra tirar meu marido de dentro de casa”, conta. 

A construção, de madeira, foi erguida logo que Dirce se mudou para a comunidade localizada no bairro Salto, em Blumenau. Os cabos de energia, já desgastados pelo tempo foram, para a moradora, o motivo do acidente, mas nenhuma investigação foi feita a respeito. No dia do acontecido, quando os bombeiros chegaram, já não havia mais nada para recuperar. “Fogo é igual um relâmpago de trovoada, não dá tempo de mais nada”, afirma.
Moradora há 33 anos do Horto Florestal, Dirce encontrou em sua vizinhança todo o apoio de que precisava. Mesmo antes de os bombeiros chegarem, os moradores da região já haviam se mobilizado para ajudar a senhora e seu marido. Em pouco tempo, os dois já tinham um lugar seguro para passar a noite, além de roupas e comida.

Mais tarde, a Associação de Moradores do bairro reuniu todo o material necessário para reconstruir a casa, que ficou pronta em três meses. “A gente se juntou em cinco moradores, eu dei um pouco da madeira, outros deram os cabos e um fez toda a instalação elétrica, outros moradores deram os pregos e as telhas, todo mundo ficou lá ajudando a erguer a casa”, relata Sebastião Antunes Vieira, presidente da Associação de Moradores. 

O novo lar não é como o anterior, mas para Dirce é o suficiente. “Agora tenho minha cama pra dormir, tenho minha comidinha e meu fogão, tá bom demais”, conta.

Moradora encontrou na religião a solidariedade

A mobilização se deu também por parte das igrejas do bairro. A capela Santo Expedito, da qual Dirce faz parte desde a sua fundação, organizou um evento para arrecadar recursos financeiros para a reconstrução de sua casa. Leuzir Mohr, frequentadora da igreja e vizinha de Dirce Seifert há mais de 25 anos, acredita que é papel dos fiéis ajudar as pessoas da comunidade, principalmente aqueles que participam das celebrações religiosas da capela. “Ela estava precisando muito e todo mundo se comoveu, aí conseguimos organizar uma pastelada e um bazar, mas tem muitas comunidades que não ajudam e o bom seria todo mundo ser solidário”, explica Leuzir. 

Mas a solidariedade não foi somente praticada pelos fiéis da igreja católica. Também na comunidade do Horto Florestal, outra congregação, dessa vez evangélica, teve papel fundamental na recuperação de Dirce. Júlio César da Silva, membro da Igreja Quadrangular há 17 anos, conta que a sua congregação arrecadou alimentos, roupas e até colchões, além do apoio espiritual. “Sabemos que é uma perda bastante dolorosa para toda a família, então acabamos dando bastante apoio espiritual para ajudar a pessoa a não cair”, afirma. Mesmo sendo de denominações diferentes, César afirma que isso não impede a igreja de ajudar quem precisa. “Não olhamos para isso. Deus é um só e se a gente quer agradar a ele, nós temos que ter fé e olhar um pelo outro”, diz.

O papel da religião na comunidade

Em pesquisa realizada no ano de 2017 pelo projeto de extensão Focus, da Universidade de Blumenau, 93,8% dos 600 entrevistados declararam acreditar em um ser superior. Entre as mulheres o dado chega a 98,4%, quase 10% a mais que os homens. Já entre os que não acreditam, o número tende a aumentar de acordo com a renda e nível de instrução, chegando a quase 14% entre os entrevistados com renda familiar mensal superior a R$ 9.300. Em contrapartida, 97,4% dos entrevistados com renda familiar mensal de até 3 salários mínimos e 100% dos que completaram somente o ensino fundamental declararam sua fé em Deus.

“O discurso religioso e a igreja são as únicas saídas dessas pessoas. Elas sabem que dar dinheiro para as instituições religiosas não vai deixá-las mais ricas, e nem vão enriquecer de um dia para outro, mas participar destes grupos é a única coisa que elas têm”, explica  Josué de Souza, professor especialista no tema religião. Para ele, não é correto assumir que os mais pobres são mais suscetíveis a serem “enganados” pelas crenças.

Segundo o pesquisador, não é à toa que os fiéis chamam uns aos outros de irmãos. "É na religião que as pessoas encontram a solidariedade, onde se descobrem e tem um ao outro como igual”, conta. Souza afirma que em uma sociedade em que as pessoas se tornam cada vez mais individualistas, ter um espaço que serve como ajuda mútua é de grande importância para os moradores da comunidade onde a congregação está inserida.

Isso ocorre, segundo o cientista social, principalmente porque é na igreja que as populações carentes encontram ajuda, atenção e até mesmo um espaço de lazer, coisas que são asseguradas pelo artigo 6º da Constituição Federal. “Muitas vezes a religião ocupa o lugar que o estado não ocupa”, analisa Souza.

Igreja assume a função do lazer entre os moradores

No Horto Florestal, um dos problemas relatados pelos moradores é a falta de um espaço de lazer. Além dos bares espalhados pela comunidade, as únicas opções são as igrejas.  “O espaço da religião se torna público, quando na verdade é um espaço privado, já que é restrito às pessoas daquele credo”, afirma Josué de Souza.

Para o pesquisador é comum existir uma grande diferença entre o que as pessoas acreditam e o que a liderança religiosa prega, mas no caso de comunidades menores, o que importa para os fiéis é encontrar um espaço de lazer, convivência social e um grupo de amigos. “A religião cumpre a função social que é religar as pessoas”, explica

O futuro da religião

De acordo com a pesquisa do projeto Focus, a tendência é que as pessoas migrem de uma religião para outra, mas sem perder a fé em um ser superior. O número de religiosos que se declara parte de algum movimento ou crença chega aos 84,4%. “Existem linhas teóricas que vão dizer que Deus dá uma explicação ao inexplicável e quando eu não consigo explicar alguma coisa, eu crio um mito, para que ele me explique. A religião é sim um conforto para as mazelas, e é por isso que ela tende a continuar no nosso dia a dia”, afirma o cientista Josué de Souza.

 

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