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Homem de Ferro

Conheça a história de Daniel de Oliveira, um dos homens mais resistentes do mundo

Daniel venceu em 2016 o Quíntuplo Ironman, no México. Mas não é só isso: sua história inspira a todos

07 junho 2019 - 17h00Por Edemir Júnior

Do sofrimento de bullying na infância e adolescência ao topo do mundo. A história de  Daniel de Oliveira poderia ser só mais uma. Poderia, mas não, ele quis ser diferente. Escolheu se superar e hoje é uma referência mundial em Ultratriathlon, competição que faz com que o atleta nade 19Km, pedale 900Km e corra 210Km - as distâncias do famoso Iron Man multiplicadas por cinco.  E não quer parar por aí. Daniel quer ganhar novamente o Quíntuplo Ironman, que ocorre em Julho, na Áustria. Além disso, Daniel quer deixar um legado, que as pessoas sempre se superem, que alcancem a mentalidade plena.

Entrevistamos Daniel e abaixo estão alguns trechos da história de vida do atleta. A entrevista completa, com todos os casos de sua carreira está disponibilizada no link do Soundcloud, ao final da matéria. 

 

TAL:  Para começar, como você se define? Quem é o Daniel de Oliveira?

Daniel: Eu me chamo sempre de ultra, mas ultra não tem a ver com as distâncias, né?! Ultra tem a ver com uma mentalidade. Uma mentalidade de achar que o impossível pode ser o cotidiano, de que aquilo que dá o frio na barriga é o que te indica a direção certa, que se você estiver confortável e seguro, parece que a vida não está fazendo muito sentido. Então, tem que ter sempre uma coisa te desafiando. Você tem a sensação que está todo dia em direção de crescimento, buscando uma evolução mesmo.

 

TAL: Como começou o seu amor pelo esporte de resistência?

Daniel: Foi meio que por acaso. Na infância eu sofria muito bullying, eu era “pamonha”, o último a ser escolhido. Na verdade, eu era rejeitado dos jogos coletivos. Eu até achava engraçado isso, mas quando eu entrei na adolescência isso começou a incomodar. Aí, eu senti uma necessidade de me auto afirmar e comecei a perceber que as pessoas que eram mais bem relacionados com o colégio, eram as pessoas que praticavam esportes. Então eu comecei a me aproximar das pessoas, onde eu era o pior de todos, e copiar o que elas faziam. Comecei a experimentar todo tipo de modalidade, onde eu era ruim em todas. Cheguei a entrar na equipe de atletismo, que me colocaram junto com os velocistas e eu era, obviamente, o mais lento de todos. Passei muitas humilhações esportivas nessa época. Só que assim, eu sempre gostei do absurdo, as coisas que pareciam estranhas. 

Quando eu tinha uns 15 anos, mais ou menos, eu li em uma revista de esportes sobre as ultras distâncias, especificamente o Ultratriathlon . Eu ouvia falar de distâncias 10 vezes maior que o Ironman e achava um absurdo, imagina quem é capaz de fazer um negócio desse. Ao mesmo tempo que aquilo me assustava, me instigava. Eu tinha 15 anos, não fazia a menor ideia do que faria da vida, mas sabia que existiam seres humanos extraordinários.

Minha preocupação era que tipo de pensamentos vinham na cabeça durante tanto tempo. Sempre era o que mais me preocupava. Nunca pensava em força física, eu pensava na cabeça. Porque sempre que você está fazendo uma coisa durante muito tempo, teus pensamentos acabam te sabotando e você acaba abortando a situação, a experiência, pela monotonia, os pensamentos te quebram, na verdade.

Em uma dessas, os pais do meu amigo tinham casa na praia e a gente queria ir para praia. Só que a gente não queria ficar esperando carona dos pais para ir para praia. Aí eu disse:“ah, vamos de bicicleta”, mas ele não tinha bicicleta. Eu tinha uma dessas bem velhas e ele não tinha bicicleta. “De bicicleta é fácil, até meu vô já foi”, ele falou, e eu disse: “então vamos caminhando” e ele disse: “é, caminhando a gente não conhece ninguém que já fez”. Aí começamos a pensar no que precisaria, perguntando para o pai dele e ele disse: “não, não dá para ir andando. Vocês vão levar 30 horas para fazer” e a gente “A é, capaz, que absurdo”. E decidimos fazer e levamos 27 horas. Tínhamos 15 para 16 anos, dois perdidos. Nos perdemos em Itajaí, pegamos a direção errada e quando a gente subiu o morro da brava, ao invés de descer para o lado que é em direção para o morro do boi, a gente voltou em direção para itajaí. Quando a gente viu, estávamos na igreja de novo. Aí sentamos no meio fio, chorando, porque não sabíamos onde estávamos. Vieram alguns taxistas ver se fomos assaltados e explicamos o que estava acontecendo. Eles acharam um absurdo mas indicaram a direção certa. Nós fomos, conseguimos terminar e juramos que nunca mais iríamos fazer isso. E aí, 11 vezes depois a gente continua fazendo ainda. Toda vez que a gente fazia, dizia que era última. Eu sempre pensava, imagina fazer isso correndo, faria na metade do tempo. Isso era anos 90, por aí. 

Em 2008, eu consegui fazer isso, depois de ter lido o livro do Dim Carnais, que sempre contava a saga dele, que começou a correr aos 30 anos de idade e se tornou um dos melhores ultramaratonistas do mundo e uma das 100  pessoas mais influentes do mundo. É legal que ele tinha família, dois filhos pequenos, bebia tequila, ia para festas e ainda era talentoso assim, eficiente no que fazia. Isso me agradava muito e eu pensei: “é isso que eu quero fazer”. Eu li o livro em uma semana,. Quando eu terminei o livro, eu treinei 10 semanas, 2 meses e meio, e corri os meus primeiros 100 km. Na verdade, deu 106 km. Eu saí da Itoupavazinha e fui até bombinhas correndo, percurso que a gente fazia caminhando. E aí, consegui fazer em 11 horas, fiquei feliz da vida, porque eu cheguei inteiraço e pensei: “se eu posso fazer isso, posso fazer qualquer coisa”. Minha mãe e meu irmão foram comigo para me dar apoio, me dar comida. A estratégia que eu usei era absurda. Imagina, a gente morava na Itoupavazinha e eu falei para eles assim “vocês não precisam sair junto comigo, vocês podem me encontrar lá na 101”. Na 101 dava 55 km e eu fiz sozinho, sem ajuda, sem nada. Aí lá, eles chegaram quase junto e levaram uma pizza e uma coca - cola para mim, eu comi e segui mais os outros 45, na verdade deu quase 52 km. E eu cheguei bem inteiro, foi bem legal. A gente foi em uma pousada, guardou as coisas na pousada e meu irmão: “guarda isso aí ligeiro, vamos para praia”. Fomos para praia, ele queria nadar, jogar futebol, como se a eu também tivesse ido de carro e eu assim: “cara, você não lembra que eu vim correndo?” (risos). Foi bem engraçado. Eu não tava acabado, mas não conseguia correr, nadar e jogar futebol com eficiência, todo travado, mas conseguia. Aí eu comecei a fazer isso direto, nunca mais parei. 

dani.jpg

Foto: divulgação

 

TAL: Como você prepara seu corpo para essas provas de resistência?
Daniel:
Eu faço uma coisa de cada vez. Quando eu pedalo 600km, eu penso em pedalar 30. Eu consigo pedalar 30? Óbvio que consigo. Então pedalo 30 mais 30 mais 30 e por aí vai, até chegar nos 600km. Eu chamo isso de estado de presença plena. Quando você está nesse estado, você sempre vai ser bem sucedido. Toda a nossa miséria física, ela se dá por você tentar ficar em dois lugares ao mesmo tempo. Você está aqui, pensando em estar lá. Por exemplo: se você vai correr 10km e está ainda no segundo, você pensa - meu deus, ainda faltam oito. Isso fica pesado demais para a cabeça. Mas se você tiver no segundo e tiver pensando no próximo quilômetro ainda, fica muito mais fácil de assimilar o nosso corpo. É uma questão de mentalidade. 

 

TAL: Falta um maior reconhecimento por parte da população com vocês atletas de resistência?
Daniel:
No Brasil, hoje, eu sou o único que faz isso. Falta uma delegação. Não tem, por exemplo, uma federação brasileira de Ultratriathlon. Por não ter, a gente fica desamparado. Por isso, eu preciso bater o recorde mundial, eu vou bater esse recorde, e aí quero criar a delegação de Ultra Endurence, que vai envolver todos os esportes de ultra distância. Aí buscar patrocinadores privados para sustentar essa federação. Eu tenho a certeza que tem muita gente melhor que eu no Brasil, mas não tem a oportunidade de chegar a fazer esse tipo de prova. A gente fica bajulando gringo, mas existe muita gente aqui. Falta mais apoio. Eu, por exemplo, transformei minha história em palestra e com essa grana, banco as minhas corridas. Mas dá pra fazer. É o que eu sempre digo: “as dificuldades fazem parte daquilo que podem me deixar mais forte”. 

 


TAL: O que diria para as pessoas que te zoavam na escola?
Daniel:
Hoje em dia encontro alguns deles e gera uma reflexão, pois na época eles eram fortes e tal, mas hoje não são mais. Em algum ponto se perderam. Eu não, eu era fraco e pamonha, mas estava me desenvolvendo ainda. Quando tomei discernimento, resolvi tomar as rédias da minha vida. Então, mais uma vez: auto responsabilidade. O que não pode é a pessoa abrir da vida. Muitos deles vão dizer que não tiveram opções na vida, mas eles abriram mão. Eu não tinha recursos para fazer o que eu fiz. Fui ridicularizado em várias vezes,  mas eu continuei fazendo e tenho obtido cada vez mais resultados e reconhecimento, tanto no Brasil, quanto fora. 

Foto: divulgação

TAL: O que o Daniel de Oliveira planeja para o futuro?
Daniel:
Agora dia 10 de julho vou pra Áustria, fazer o Quíntuplo Ironman de novo, o primeiro desde 2016. Então, vou defender o título. O plano é ganhar de novo. Tem dois caras que são bem fortes, do meu nível. Então, não para prever a vitória, mas vai ser uma briga bonita. Tem um cara da Estônia e um alemão, que na minha visão é o melhor do mundo. E vamos estar nós três lá para ver quem é o melhor mesmo.

E em outubro vou para o México, para fazer um feito inédito, que são 20 Ironmans seguidos. Somos em oito caras apenas, que aceitaram o desafio que é correr 20 vezes a distância do Ironman de forma contínua. Isso dá 76km nadando, 3600km pedalando e 844km correndo, sem parar. Vamos ver se é possível. Quem chegar primeiro vai ser o campeão mundial.

 

 

 

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