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Esporte

Do escritório em Blumenau a coordenador do curso de direito internacional do esporte em Madrid: conheça a história do advogado Luis Fernando Novaes

Advogado de grandes estrelas do futebol mundial, como o zagueiro Thiago Silva, Luis relata como conseguiu chegar ao patamar em que se encontra nos dias de hoje

28 junho 2019 - 16h59Por Edemir Júnior

Advogado, agente de jogadores de futebol, vice-presidente da Apan e coordenador e professor de um curso de direito no esporte, em Madrid, na Espanha. São essas as atuais funções de Luis Fernando Pamplona Novaes, blumenauense, de 37 anos. Formado em direito, na Furb, em 2004, Luis transcendeu fronteiras e hoje é uma das referências mundiais quando o assunto é direito esportivo, principalmente envolvendo o futebol.

Em entrevista ao repórter Edemir Júnior, Luis contou um pouco de sua história, sobre como conseguiu atingir o seu patamar atual e como é conviver com grandes estrelas do futebol mundial. Confira abaixo:
  
TAL - Você se formou em direito na Furb, em 2004. Desde aquela época já tinha a intenção de desbravar esse mundo afora através do teu trabalho?

Luis: Na verdade, minha história é até um pouco engraçada, pois eu não esperava nem me tornar advogado. Na época eu praticava esportes e meu pai era treinador do vôlei de Blumenau e coordenador do curso de Educação Física na Furb, e foi quase que uma imposição dele na época, que como atleta eu dificilmente ia dar certo, e era melhor eu começar a estudar. Quando entrei na universidade, não sabia nem o que era uma constituição. Então, foi uma transformação muito grande durante os cinco anos. Foi através da universidade que eu conheci o professor Evaristo Kuhnen, que hoje é meu sócio. Fiz mestrado fora do Brasil, em Madrid, onde fui aluno, depois professor e agora coordenador do curso de Master International Sports Law, que é a principal escola de direito internacional do esporte do mundo, principalmente naquilo que se refere ao futebol. 


TAL - Você dá aulas em vários países, como na Espanha e Estados Unidos. O que significa para você chegar nesse nível?

Luis: Quando você domina aquilo que você faz e, principalmente, faz o que gosta, por mais que pareça um clichê, isso ajuda muito. Eu sempre falo isso para todo mundo: lecionar, para mim, é um prazer, um espaço de aprendizado. Tenho alunos da Índia, Japão, Arábia Saudita, Irã, EUA, Canadá, países europeus, África, Camarões, então eu me sinto muito privilegiado por isso. 


TAL - Você tem desde 2018 a NM gol, empresa que representa atletas de futebol. De onde surgiu a ideia de começar a agenciar esses jogadores?

Luis: Foi uma casualidade. Na verdade, meu prazer e foco sempre foram na advocacia, é o que eu gosto de fazer. O agenciamento surgiu como uma consequência natural. Tive alguns clientes no meu escritório que não tinham agentes e começaram a me pedir ajuda, para negociar contrato e outras coisas a mais. Então, em 2018, após algumas tentativas, eu trouxe o Ademar Molon Jr., que é ex-jogador profissional, e ele aceitou fazer parte da equipe. Mas nós não queríamos fazer somente a intermediação entre atleta e clube, mas sim toda uma gestão da carreira do jogador. Pegar ele no estágio embrionário, na base, em um nível mais baixo e levá-lo a ter outras oportunidades e a gente, obviamente, ganhar com isso.

 

TAL - Como você define a real função de um empresário de jogador de futebol? 

Luis: Existem várias formas de se conduzir esse tipo de trabalho. Existem empresários que são meros intermediadores entre atleta e clube. Nós, enquanto agência, fazemos um trabalho maior que isso. Pegamos a carreira desses atletas, cuidamos da conta bancária dele, do imposto de renda, como ele vai investir o seu dinheiro quando começar a ganhar dinheiro, proporcionamos toda uma infraestrutura quando o atleta precisa de um cuidado médico, domínio de uma língua estrangeira. Hoje a gente vê atletas que muitas vezes têm condições técnicas, mas não se adapta ao país de fora. É um gerenciamento de carreira.

TAL - Você tem uma influência também em clubes do leste europeu, como por exemplo o Saravejo, da Bósnia. Como tu chegou até eles? porque para quem acompanha o futebol, o leste europeu parece ser um mundo à parte né  

Luis: Networking, o relacionamento com pessoas. Isso passa desde as universidades onde trabalhei, dos times onde o Ademar jogou, das escolinhas onde jogamos quando éramos mais novos, então a gente foi construindo durante todo esse tempo uma série de amizades e reputação. Os próprios atletas nos indicam para conhecidos, esse mercado funciona muito assim: Member Get Member. Você tem um atleta e ele te apresenta para outras pessoas. E outra: o mundo está globalizado. Então, você tem que estar ligado no mercado ideal para aquele atleta. Dificilmente um jogador vai sair aqui da nossa região e ir diretamente para o Real Madrid. Ele precisa subir alguns degraus. 

Luis e seu cliente - o jogador Nathan, que atua no futebol bósnio. Foto: Instagram / reprodução


TAL - Muitas vezes, os empresários de jogadores são considerados vilões, por torcedores e dirigentes. Fazem o jogador forçar uma transferência ou se não aumentar o salário do atleta, ameaçam tirá-lo do clube, por exemplo. Você acha que isso faz parte do ramo dos empresários, para valorizar seu produto? 

Luis: Eu lembro de uma frase que li no livro escrito pelo ex-treinador de futebol, Alex Ferguson, que o empresário é algo totalmente dispensável para um jogador de futebol. Acho que ele está certo, para um certo nível de mercado. No futebol, assim como em outros mercados, existem vários níveis de atuação. Vai desde atletas de atuação em seleções internacionais, até jogadores de clubes da quarta divisão, que são atletas, muitas vezes, sem estrutura nenhuma. O mercado vem mudando muito nos últimos tempos. Creio que o profissional que não respeitar os níveis básicos de ética e respeito, vai perder espaço. Assim como em todos os ramos, existem os bons profissionais, e os ruins. 


TAL - Você, além de ser agente de alguns atletas, é também advogado de alguns grandes nomes do futebol, como por exemplo o Thiago Silva, zagueiro do Paris Saint Germain e da Seleção Brasileira. Como é isso, essa convivência com atletas conhecidos mundialmente? 

Luis: Também fruto de um trabalho de longo prazo. Quando eu comecei a trabalhar nesse mercado, comecei com um empresário muito bem-sucedido, que era o Paulo Tonietto. Hoje já trabalho a mais de 12 anos com ele. Ele me apresentou vários atletas na época. O atleta quando chega em uma grande nível, se torna uma empresa. Tem negócios de uma natureza muito diferentes e demandas muito distintas. Exemplo é o caso Neymar, que se envolveu em uma demanda de família, de exposição público, algo que naturalmente um advogado desportivo não estaria envolvido. Então, esse tipo de relacionamento é um pouco de preparo e também conhecer as pessoas certas. 

Luis e Naldo, zagueiro do Mônaco/Fra. Foto: Instagram / reprodução.

 

TAL - Em abril de 2019, a Apan, o time de vôlei masculino aqui de Blumenau, conseguiu o acesso à superliga A. Você é o vice-presidente do clube. Como foi ver o galegão lotado como estava, com a população de Blumenau apoiando insanamente e, consequentemente, conseguir o acesso?

Luis: A cidade de Blumenau mostrou que gosta de voleibol, comprou a ideia. Apoiou nosso time em todas as fases. Nossa média esse ano foi de 2100 torcedores, que é um público realmente bom. É superior a média da maioria dos times da série A do Catarinense de Futebol. Então, estamos muitos felizes com os resultados obtidos. Agora muda a chave, é uma nova história. Temos que buscar os patrocínios para que a gente possa disputar a Superliga A e representar bem Blumenau, sem esquecer da nossa vocação, que é revelar novos jogadores. 
 

TAL -  Temos em Blumenau muitas modalidades esportivas profissionais, como o futebol, futsal, vôlei, entre outros, mas que dificilmente conseguem se manter no topo por duas temporadas seguidas. O que tu achas que falta para o esporte blumenauense conseguir se estabelecer mais? Os empresários precisam apoiar mais? 

Luis: Penso que primeiro temos que entender porque isso acontece e depois falar sobre o que precisa. A gente vive em uma cidade que não é grande, com uma economia bastante setorizada, com uma história de apoio e investimentos em esporte. Mas existem limitações. O esporte custa caro, não é fácil montar uma equipe de alto rendimento, principalmente quando se chega nos níveis maiores. Mas acho que durante muito tempo faltou gestão, e o esporte, assim como outros seguimentos da vida, existe administração. Muitas vezes as empresas apoiaram, mas os clubes gastaram mal o dinheiro. Em algumas modalidades ficamos muito dependentes do poder público. Nunca fomos buscar projetos incentivados, nem buscar produtos para vender para os patrocinadores. É uma combinação dessas duas coisas: trabalhar melhor a gestão, buscarmos administrar o esporte de maneira diferente, inovando, e assim buscar novos investidores, que vejam o esporte como produto.
 

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