Menu
Busca Ter, 16 de julho de 2019
(47) 99975-9521
LGBTfobia

LGBTfobia e a luta por visibilidade e mais justiça

O Brasil é um dos países que mais mata LGBT+ no mundo. E segundo a ONG Transgender Europe – TGEU –, o país está na liderança quando se trata de mortes de transexuais

19 junho 2019 - 17h45Por Yasmim Eble

Para o mundo, o Brasil é um país paradisíaco. Com belas praias, água cristalina, jogadores que fizeram história no futebol e festas típicas, que são famosas internacionalmente. Porém, o que muitos não sabem é que o Brasil é um dos países que mais mata LGBT+ no mundo. E segundo a ONG Transgender Europe – TGEU –, o país está na liderança quando se trata de mortes de transexuais. O Brasil tem o número alarmante de 167 transexuais mortos, entre 1º de outubro de 2017 e 30 de setembro de 2018. Em outros termos, os transexuais são o grupo mais fragilizado no LGBT+.

Os dados mostram que o Brasil é um país difícil de morar quando se é LGBT+. No entanto, além de enfrentar o contínuo desrespeito, a invisibilidade na sociedade e o extremo medo de apenas viver, essas pessoas ainda precisam combater a falta de dados oficiais sobre as mortes que cercam essa comunidade e a impunidade dos casos. No Brasil, nenhum órgão oficial faz a coleta desses dados de forma legítima, tornando assim as bases para as pesquisas voláteis e de difícil acesso. Servindo também de forma, indireta, para silenciar essas minorias. Em contramão a falta de dados, a organização Grupo Gay da Bahia, desde 1980, recolhe e tabula dados tirados por meio de manchetes de jornais e publicações em redes sociais. Postadas em um relatório todos os anos, o GGB contabiliza e detalha as mortes de LGBT+ em todo o Brasil. 

No entanto, mesmo sem nenhum auxílio, associações e ONGs não governamentais tentam a todo custo dar voz para os segmentos do LGBT+ com suas pesquisas individuais. Segundo o Grupo Gay da Bahia, cerca de 33 milhões de brasileiros pertencem a algum segmento LGBT+. Sendo 20 milhões de gays, 10% da população brasileira. 12 milhões de lésbicas, cerca de 6%. E 1 milhão de transexuais, cerca de 0,5%. Tornando assim a comunidade LGBT+ uma das várias minorias que não tem o amparo sociopolítico contra seus agressores no Brasil.

Uma das mais novas conquistas pelos seus direitos da comunidade, foi a criminalização da LGBTfobia pelo Supremo Tribunal Federal, a decisão aconteceu na última quinta-feira, dia 13. Crimes de ódio contra a população LGBT+ serão agora punidos da mesma forma que o crime de racismo, a conduta é inafiançável. Porém, ainda se vê um longe caminho da comunidade a procura pelos seus direitos de viver em igualdade e sem medo de serem quem são.

Em 2018, o número de LGBT+ mortos chegou a 420, tendo uma pequena diminuição comparada a 2017 – que foi o maior índice desde o início das pesquisas feitas pelo grupo –. Ao todo, nos últimos quatro anos se somam mais de 1.500 LGBT+ mortos no país. 

Crédito: Yasmim Eble

Segundo o Grupo Gay da Bahia, as mortes são causadas por três tipos de LGBTfobia diferentes. Há a LGBTfobia individual. Quando o agressor reprime sua sexualidade e usa dela para praticar atos violentos. Há também a LGBTfobia cultural, neste caso a pessoa cresce sendo ensinada a repudiar e excluir pessoas que se relacionam com o mesmo sexo ou que simplesmente fogem do padrão que lhes foi ensinado, devido a uma criação conservadora e ignorante. Essas pessoas, em sua maioria, praticam bullying e fazem de tudo para inferiorizar essas minorias. E por último, a LGBTfobia institucional que se configura quando o Estado não auxilia a comunidade LGBT+ com projetos de lei, com mais segurança e oportunidades iguais no âmbito econômico, educacional e político.  

Tendo que lutar contra a violência física e psicológica vinda de vários lados, a comunidade ainda precisa gritar por seus direitos e por justiça. E até mesmo dentro da comunidade LGBT+ existem grupo mais fragilizados e vulneráveis. Em comparação ao número de pessoas do segmento contra número de mortes, os transexuais ainda são o grupo mais exposto e desprotegido, mesmo que tenham ocorrido menos mortes que o segmento Gay, por exemplo. 

Crédito: Yasmim Eble

Com base nos dados coletados pelo Grupo Gay da Bahia, 77% das mortes acontecem quando o indivíduo é adulto, de 25 a 40 anos, normalmente porque há a tendência de uma maior aceitação pessoal quanto a sua sexualidade nesta idade. 29% das mortes são de pessoas de 18 a 25 anos provocadas por bullying ou crimes de ódio. 7% de LGBT+ menores de 18 anos e outros 7% para aqueles com mais de 60 anos. 

A LGBTfobia atinge todos os segmentos da sociedade. O ódio ultrapassa a relação com a cor, a idade, as classes sociais ou profissões. O que mais assusta nos casos de LGBTfobia, normalmente, é a brutalidade. Como exemplo temos a travesti Dandara que foi espancada, torturada, apedrejada e morta a tiros por cinco homens em 2017 e tudo foi relatado em um vídeo postado na rede social Facebook. Crimes como esse alertam e também revoltam as pessoas que acreditam que todo ser humano tem o direito à vida.

Em 2018, as principais causas das mortes de LGBT+ continuam sendo por arma de fogo, seguido de armas brancas e agressões físicas que envolvem espancamento, asfixia, pauladas, apedrejamento e até mesmo corpos carbonizados. 49,4% dos corpos são encontrados em vias públicas, 42,8% em residências e 7,7% em estabelecimentos privados, segundo dados coletados pela organização Grupo Gay da Bahia. Os suicídios têm como causa a negligência familiar, já que a rejeição a sexualidade pode levar a maus tratos, agressões e em grande parte dos casos a expulsão de casa. Deixando muitos pertencentes da comunidade LGBT+ na rua ou enfrentando situações extremas para conseguir se sustentar. 

O reflexo desses números alarmantes se dá quando, após a análise, se constata que não há nenhuma região brasileira que não tenha registrado menos de 40 mortes de LGBT+ no Brasil em 2018. Sendo o Nordeste a região que obteve o maior índice de mortes violentas, com 147 vítimas, seguido do Sudeste, com 137 mortes. Sendo assim 2,01 LGBT+ é morto por milhão de habitante no Brasil. 

Crédito: Yasmim Eble

O mau da violência psicológica

A autoaceitação para a maioria dos LGBT+ é a parte mais difícil no processo do descobrimento da sua identidade de gênero, orientação sexual e expressão de gênero. Para Samuel Asthore Bortoluzzi, estudante de Letras na Furb, esse processo de descobrimento foi lento e de diversos aprendizados. “Eu sempre fui uma criança que gostava de camisetas largas e cores neutras, gostava muito disso, e meus pais nunca foram preconceituosos então nessa época eu simplesmente não ligava”, comentou Samuel. 

Com o passar do tempo, Samuel começou a perceber que suas mudanças corporais eram incomodas e injustas para ele. “Eu não queria ser assim, eu queria ser apenas uma criança”, desabafa. Um pouco depois desses momentos, Samuel se intitulou um homem transexual e acredita que tudo não passa de um processo de conhecimento interno, tanto que na época que se viu como homem transexual, nunca imaginou que sua expressão de gênero não se limitaria aos gêneros feminino e masculino, e que no futuro se descobriria não-binário – alguém que não utiliza dos termos ele ou ela ou que por mais que use, não se sente inteiramente masculinas ou femininas –.

“Nossas perspectivas normalmente são lentas, e eu fui me entendendo com o tempo”, disse o estudante. No entanto, uma das coisas que ele mais percebe durante seu dia a dia é o preconceito que está enraizado na sociedade. “Acredito que a violência psicológica é a mais usada aqui na região. Já li ofensas pela internet como também já ouvi na faculdade”, comenta Samuel.

A violência psicológica é uma das que mais se pratica no Brasil. Em média, o Disque 100 do Ministério de Direitos Humanos, registra mais de duas mil denúncias anuais apenas dos segmentos LGBT+. Só em 2018, no Brasil, em dados coletados de janeiro até julho foram registradas 842 denúncias pelo número. 

Crédito: Yasmim Eble

De “Gênero Pokémon” até Esquizofrênico, Samuel já ouviu diversos termos esdrúxulos sobre sua identidade de gênero. A hostilização e a humilhação são as formas que se sobressaem na violência psicológica e a mais notória. “As ofensas vêm de todos os lados. Já me disseram que eu estaria mutilando meu corpo se eu fizesse terapia hormonal e removesse os seios”, completou o estudante.

O assédio, principalmente em bissexuais e homens transexuais, é devido a cultura de que essas pessoas estão confusas e que precisam de uma afirmação para conseguir aprovação da sociedade. “É um sentimento de incompreensão... As pessoas realmente acham que você não entende a si mesmo e que está apenas em uma fase. Quando na verdade esse é o meu verdadeiro eu”, desabafa Samuel. 

O estudante acredita que exista uma diferença gritante quanto ao tipo de violência que cada região brasileira direciona a comunidade LGBT+, e que no Sul mesmo com um baixo índice em mortes, a realidade de um pertencente a comunidade é muito diferente. Em que é perceptível a cultura LGBTfóbica que é presente no estado de Santa Catarina, em principal Blumenau, a cidade em que Samuel mora desde muito novo.

No Brasil, o órgão que coleta essas denúncias referentes a violência psicológica é o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos pelo Disque 100. E com base nessas denúncias, os homens são os que mais denunciam a violência sofrida. 

Crédito: Yasmim Eble

Essas denúncias são registradas, mas normalmente não ganham um olhar mais detalhado, sendo esse um dos maiores problemas do Brasil quando se trata da população LGBT+.  Um país com um descaso visível, fazendo a comunidade ter suas vozes arrancadas e silenciadas. Em que mortes com requintes de crueldade são banalizados. E nomes simplesmente esquecidos.

Nos últimos quatro anos, mais de 1.500 LGBT+ morreram no Brasil. No entanto, a maioria dos casos continuam sem solução, e o país continua em silêncio.

Deixe seu Comentário

Leia Também

Gastronomia
Inscrições para a 6ª edição do BlumenKuchen estão abertas
Cultura
Biblioteca leva histórias aos pacientes do Santo Antônio
Inverno
Zoológico de Pomerode realiza adaptações para manter os animais aquecidos
Agenda
Confira programas para fazer neste fim de semana
Cultura
Resenha: Pendular, o definhar em partes de um relacionamento em crise
Julho Amarelo
Julho é considerado o mês de prevenção e conscientização das hepatites virais
Cultura
Iniciou nesta segunda-feira (8) a venda de ingressos para a 36ª edição da Oktoberfest
Saúde
Macaco morto por Febre Amarela é encontrado em Santa Catarina
Prevenção
Simulados capacitam equipes de unidades educacionais para emergências
Inverno
Prefeituras de Santa Catarina intensificaram ações para acolher pessoas em situação de rua